Tecendo a arte naif

Tecendo a arte naif

Esse texto abaixo foi escrito por Marinilda Boulay para os artistas que participaram de um processo de realização compartilhada de uma mostra chamada « Nossa Escolha Naif », que funcionou como  um exercício de curadoria, pois os artistas que se inscreveram para expor nela eram também os curadores na escolha das 20 obras mais apreciadas pelos aproximadamente 70 artistas inscritos.

Esse texto foi escrito após esse processo de escolha, quando seria anunciada a lista das 20 obras escolhidas.

Tecendo a arte naif

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Fragmento de Tecendo a manhã – João Cabral de Melo Neto

É bom lançar a primeira onda de luz na busca do entendimento dessa nova etapa do processo onde estamos,  que corresponde à pós-curadoria, com as palavras da artista popular mineira Dona Izabel (Izabel Mendes da Cunha, 1924-2014), falando sobre sua excepcional obra em cerâmica: « Eu me ensinei sozinha », ela traz aqui uma importante chave que aproxima os artistas naifs dos artistas populares, que é o fato de sermos todos autodidatas.

No livro de grande fôlego organizado por Edna M. de Pontes, cujo título deriva dessa mesma frase de D. Izabel, o artista e professor de arte Paulo Pasta, afirma que (…)  « A produção popular em geral não tem como referência a opinião da crítica, de documentos, de bienais, por isso pode ser mais arejada, mais viva. A qualidade da produção dessas pessoas se iguala à de grandes artistas contemporâneos ». 

Mesmo se nossa arte naif não deixa de ser arejada e viva, essa nova chave trazida por Paulo Pasta representa uma bifurcação na nossa jornada ao lado dos artistas populares, a partir da qual nos diferenciamos deles. 

Podemos apoiar nossa afirmação tendo em vista o número crescente de exposições, bienais, galerias, festivais, dedicados à estética naif tanto a nível nacional como internacional, e às características do próprio exercício de curadoria proposto pela « Nossa escolha Naif », sugerindo que nossa eleição seja amparada por textos contendo reflexões de diferentes críticos, curadores, estudiosos da arte em geral e da arte naif em particular.

A prática aqui desenvolvida por esse grupo de artistas, numa « brincadeira » levada a sério, e sem polarizar entre o popular e o contemporâneo, vem tecer ainda mais em profundidade nossa identidade de artistas pertencentes a uma estética absoluta, ou seja a naif.

À medida que esse exercício nos leva a praticar a curadoria, ele nos conduz paralelamente ao distanciamento do « eu ». 

Aprendendo a reconhecer e a cultivar o que eleva nossas consciências na obra do outro, evoluímos e depuramos nosso gosto.

O próximo passo que teremos que dar nessa movimentação, é caucionar nossa disciplina para receber a apuração dessa curadoria, com a eleição de alguns entre todos. 

Independentemente do que vier, esse resultado não é um fim, mas um meio para continuar com humildade, e fazer o necessário para manter a consciência elevada, criar as condições em nós de aperfeiçoamento na arte, que é o nosso « cálice », propiciando as circunstâncias necessárias para que os deuses e as musas possam despejar nele seu néctar. 

A grande arte do homem é transmutar momentos do tempo para a eternidade. Transmutar momentos da banalidade para a sacralização, para a função de dar sentido. E a função de dar sentido para nós artistas se passa através da busca do Belo, para que assim os homens possam alcançar um pouco de luz através das nossas obras.

Platão tem uma passagem no « O Político », um dos seus diálogos, que apesar do título se aplica ao nosso momento. Ali ele fala que um bom tecido pode ser resistente e macio ao mesmo tempo, e para tanto ele tem que ter um fio mais sólido na trama e um fio mais macio na urdidura. Ambos crescem  e se tornam maiores juntos, sustentando o tecido. Os dois fios se entrelaçam mas nenhum deixa de ser aquilo que é, sendo um fator de soma para o outro.

Nessa nossa trama, onde a urdidura é a Beleza, conseguimos elevar mais alto nossos valores, nossos princípios, e crescemos tecendo juntos a arte naif contemporânea!

  • Marinilda Boulay é artista, pesquisadora de cultura popular, difusora da arte naif, em exposições e na BÏNaif – Bienal Internacional de Arte Naif Totem Cor-Ação em Socorro-SP, da qual é uma das criadoras e coordenadoras. Presidente do ITC – Instituto Totem Cultural (totemcultural.org.br).

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